por Rafael Alves Rocha, Diretor-geral da CIP
Publicado no Jornal Económico a 17.04.2026
A turbulência geopolítica que estamos a viver é também resultado de uma disputa por recursos energéticos, numa altura em que os níveis de produção e consumo mundial de energia são os mais elevados de sempre. A invasão da Ucrânia pela Rússia não pode ser desligada das reservas de minérios críticos do território ucraniano, assim como as ameaças dos EUA à Gronelândia obedecem a um desejo nada discreto de aceder às riquezas minerais da ilha. Por seu turno, os conflitos no Médio Oriente, como o mais recente no Irão, têm historicamente os combustíveis fósseis como fautores de tensão geopolítica e contendas militares.
A atual competição entre EUA e China também envolve o setor energético enquanto fator estratégico de uma disputa mais ampla por influência geopolítica, liderança tecnológica e crescimento económico. Os EUA tornaram-se líderes mundiais na produção de petróleo e gás, sobretudo com recurso à técnica de fracking (fraturamento hidráulico). Mas também investiram fortemente em energias renováveis (já ultrapassaram o carvão no consumo energético) e em tecnologia para armazenamento, redes inteligentes e eficiência energética.
Mas é a China quem lidera a produção de energia renovável, com mais turbinas eólicas e painéis solares instalados no seu território do que o resto do mundo. O gigante asiático investiu massivamente em infraestruturas energéticas e em tecnologias limpas, sobretudo para energia solar e eólica. É responsável por mais de 80% da produção mundial de painéis fotovoltaicos, o que lhe permite fabricar equipamentos a baixo custo e exportar tecnologia verde. Assume também uma posição de liderança nas tecnologias de redes inteligentes, na transmissão de alta tensão e na produção de veículos elétricos e baterias.
Apesar de Donald Trump não acreditar nas alterações climáticas e de a China ainda depender fortemente do carvão, a transição energética é um processo central na competição entre as duas potências. As energias renováveis servem, não só para projetar a força geopolítica dos dois países e expandir as suas economias, como para alimentar a voragem tecnológica. Os centros de dados para a Inteligência Artificial ou as infraestruturas de computação quântica, por exemplo, exigem uma produção crescente de energia limpa.
Acresce que a transição energética depende do acesso a minerais, como o silício (painéis solares), o lítio e cobalto (baterias), os elementos de terras raras (turbinas eólicas), o cobre (redes inteligentes) ou o estanho e tântalo (semicondutores). Ora, estes minerais estão concentrados em muito poucos países. A China é um desses países e tem ameaçado os EUA com a proibição da exportação de vários minerais críticos para a descarbonização e a digitalização.
Ensinamentos da História
A História ensina-nos que a energia é, efetivamente, um poderoso instrumento de poder e de afirmação de soberania. Ontem como hoje, o acesso a fontes energéticas confiáveis, eficientes e abundantes permite sustentar quer o desenvolvimento económico, quer o poder militar das nações. A autonomia de um Estado depende muito da sua capacidade para controlar a produção e distribuição de energia, garantindo um abastecimento seguro.
A importância estratégica da energia tornou-se particularmente evidente durante a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII. Nesse período, a utilização intensiva do carvão como fonte energética permitiu o desenvolvimento da indústria moderna, impulsionando a mecanização da produção. Países com acesso abundante a carvão, como o Reino Unido, adquiriram uma vantagem económica, tecnológica e militar significativa.
No século XX, o petróleo substituiu o carvão como principal fonte de energia global, devido à expansão do transporte automóvel, ao progresso da aviação e à evolução da indústria petroquímica. A crescente dependência de petróleo das economias industrializadas transformou, como já vimos, este recurso num elemento central da geopolítica. O controlo do petróleo passou a influenciar decisões estratégicas, alianças diplomáticas e conflitos armados, tornando-se um dos fatores estruturais da política internacional contemporânea.
Atualmente, a energia continua a ser uma vantagem competitiva, embora num contexto de transição energética e emergência ambiental. O desenvolvimento das energias renováveis permite reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados e, simultaneamente, enfrentar o desafio das alterações climáticas. Para muitos países, esta transição representa não apenas uma necessidade ambiental mas também uma oportunidade para reforçar a autonomia energética e reduzir vulnerabilidades externas, com ganhos geoestratégicos.
Portugal na transição energética
O setor energético em Portugal tem registado profundas transformações nas últimas décadas, impulsionadas pela redução das emissões de gases com efeito de estufa, pelo reforço da segurança energética e pela eletrificação da economia. Historicamente, o país apresenta uma elevada dependência energética externa, uma vez que grande parte dos combustíveis fósseis consumidos, como o petróleo e o gás natural, são importados. Esta dependência torna o sistema energético nacional vulnerável às variações de preços e às dinâmicas geopolíticas dos mercados internacionais de energia, como voltámos a constatar com a última crise no Médio Oriente.
Com o objetivo de reduzir essa dependência e promover um modelo energético mais sustentável, Portugal tem apostado no desenvolvimento das fontes limpas. Hoje, o nosso país é apontado como um exemplo de sucesso na incorporação de energias renováveis (sobretudo hídrica, eólica e solar) na produção elétrica, embora tenha potencialidades para ir mais além neste processo.
Apesar dos progressos alcançados, o setor energético português enfrenta ainda vários desafios, nomeadamente a necessidade de reforçar as infraestruturas da rede elétrica, aumentar a capacidade de armazenamento de energia e garantir a integração eficiente de fontes renováveis intermitentes. Adicionalmente, a manutenção de preços competitivos da energia para consumidores e empresas continua a ser uma preocupação relevante no contexto da transição energética.
Portugal integra, desde 2006, o Mibel – Mercado Ibérico de Eletricidade. Mas como se viu no apagão de abril de 2025, que resultou de uma falha na rede espanhola mas cortou mais de 90% do consumo de energia no nosso país, há riscos que advêm do facto de a Península Ibérica ser uma “ilha energética”. O país ganharia em ter interligações sólidas, quer em termos de eletricidade, quer em termos de gases, com toda a UE. Mas, para isso, é fundamental que a França deixe cair a sua relutância em estabelecer interligações com Espanha.
Independentemente das virtualidades do Mibel, a verdade é que a Europa deve eliminar as barreiras às interligações energéticas entre Estados-membros, constituindo um mercado único europeu de energia. As interligações são um fator essencial para reforçar a solidez e eficiência dos sistemas energéticos, garantindo maior autonomia, estabilidade, abrangência, segurança e sustentabilidade no abastecimento de energia.
Para acelerar a transição energética, a energia nuclear – sobretudo se sustentada em SMR, mini reatores modulares – não deve ser descartada como complemento das renováveis. Num contexto de grande instabilidade geopolítica e disrupções no abastecimento de energia, como o que estamos a viver, e perante o agudizar da emergência climática, é imperioso evoluir rapidamente para formas limpas de produção e consumo energético. Até porque, como vimos, a transição energética tem implicações sérias na autonomia estratégica e na segurança geopolítica do país e da Europa.










