por Armindo Monteiro, Presidente da CIP
Publicado no Dinheiro Vivo a 30.01.2026
Há uma sensação de decadência a perpassar as sociedades ocidentais, não sendo a portuguesa uma exceção, infelizmente. Esta sensação entronca com a reconhecida crise de lideranças políticas nas democracias liberais, com um certo alheamento das elites face ao bem comum e ao destino das nações e ainda com a prevalência das emoções sobre a razão no debate público.
Já muito se falou da atual crise de lideranças. Não se trata de nenhum assomo nostálgico por líderes da dimensão de Roosevelt e Reagan, Churchill e Thatcher, de Gaulle e Mitterrand, Monnet e Delors, Soares e Sá Carneiro, que conquistaram um lugar de relevo na História. Trata-se, sim, de constatar a falta de visão estratégica e capacidade reformista dos líderes atuais.
A disrupção tecnológica acelerou o tempo histórico e as transformações políticas, sociais, económicas e culturais sucedem-se a uma velocidade vertiginosa. Aturdidos pelo desenrolar dos acontecimentos, os líderes políticos revelam-se incapazes de refletir estrategicamente, de fazer planos de longo prazo e de implementar medidas e políticas de carácter estrutural. Limitam-se, em muitos casos, a surfar a espuma dos dias, não conferindo um sentido claro e um rumo firme à governação.
Para agravar a situação, assistimos à abulia das elites. Desencantadas com o tempo presente ou acomodadas à situação confortável de espetadoras de um mundo em ebulição, as elites tendem a afastar-se do destino coletivo e a não contribuir cabalmente para o processo histórico. Isto deixa as sociedades exangues de talento, iniciativa, conhecimento e recursos, avolumando a inoperância que decorre da crise de lideranças.
Entretanto, as sociedades polarizam-se e deslaçam-se fruto, em boa medida, do vazio de lideranças políticas e cívicas. Perante o vácuo, emergem os populismos com as suas propostas simplistas e divisionistas, que só acentuam a ausência de orientação estratégica, capacidade mobilizadora e poder de realização dos decisores públicos e das elites dirigentes. Num espaço público turvado pelas emoções amplificadas nas plataformas digitais, os líderes democráticos navegam à vista e a sua ação é tolhida por uma excessiva preocupação em ser popular, mesmo que para isso seja preciso vender a alma ao diabo.
No nosso país, tardamos em definir uma estratégia nacional que nos permita recuperar dos atrasos estruturais, melhorar a eficiência do Estado, reforçar a competitividade económica, aumentar a capacidade de inovação e, a partir de tudo isto, estabelecer uma base sólida que nos permita criar riqueza, bem-estar e esperança para os portugueses. Vivemos encostados à soleira dos fundos europeus, revelando a mesma incompetência política, a mesma pobreza de espírito, a mesma dependência do Estado que tanto encanitava Eça de Queirós.
Aqui chegados, há que pedir responsabilidades às elites. Estas devem assumir o seu papel no progresso do país e liderar a comunidade com sentido de interesse público e de acordo com o bem comum. Isto passa, a meu ver, não só pela promoção do espírito cívico e da cidadania ativa mas também por uma reforma do sistema eleitoral que melhore as condições de governabilidade, reforce a representatividade política, restitua a confiança nas instituições e eleve a qualidade do Parlamento. Precisamos de verdadeiros líderes, que façam escolhas firmes e corajosas, que não tenham medo de ser impopulares, que criem ruturas com os poderes fáticos, que desfaçam os falsos consensos e as verdades adquiridas.

