Leia aqui o artigo de opinião desta semana assinado por António Saraiva na sua coluna semanal do Dinheiro Vivo, ao sábado.
Publicado no Dinheiro Vivo, edição de 19.11.2016

Quase um ano depois da histórica reunião que permitiu que se estabelecesse, em Paris, um acordo sobre alterações climáticas, a realização, agora em Marraquexe, da vigésima segunda Conferência das Partes, é um momento de afirmação, mesmo sem um roteiro para a ação definido.

E tal é possível porque, nesta altura, as vontades manifestaram-se: o mundo recebeu, há poucos meses, a notícia da adesão dos Estados Unidos da América e da China ao Acordo de Paris. Ou seja, os dois maiores emissores de gases de estufa, com todo o seu poder económico, mostraram-se disponíveis para ações concretas na mitigação e na adaptação aos efeitos adversos das alterações climáticas. Há cerca de um mês, foi a vez da Índia, com a sua economia crescente e imensa população.

Mesmo com o risco que resulta da eleição de Donald Trump – pelas declarações que tem feito sobre o tema –, o facto é que o comportamento da delegação norte-americana em Marrocos tem sido exemplar e um catalisador para o que é necessário fazer. Como disse o secretário de Estado John Kerry, este movimento é já independente dos governos, porque é o mercado que o exige.

Não admira, portanto, que Portugal também tenha ratificado formalmente o Acordo de Paris, tornando-se o quinto Estado europeu a fazê-lo.

Marraquexe mostra que já temos posturas claras por parte das maiores economias mundiais para que seja instalado um indispensável clima de confiança, porque é preciso não esquecer que a maioria dos desafios a enfrentar é transnacional e as ações a empreender, com os custos a elas inerentes, são partilhadas entre várias nações.

Esta realidade também se aplica à Europa. O sucesso dentro da União Europeia implica um esforço acrescido de união e de solidariedade.

Portugal tem cumprido a sua quota parte neste desafio: investiu fortemente na transição energética, tendo das mais altas taxas de renováveis no consumo final de energia e cerca de 60% de energia proveniente de fontes renováveis na produção de eletricidade.

A Europa tem de assumir e de valorizar este esforço, que o País e a sua economia estão a suportar em circunstâncias que todos têm de reconhecer como particularmente difíceis, com riscos associados muito significativos e, infelizmente, duradouros no tempo.

O tecido económico nacional, apesar deste quadro externo desfavorável, estará preparado para estes desafios na exata medida do seu envolvimento nas decisões a tomar e, sobretudo, do modo como serão levadas à prática.

É importante que se estabeleça um ambiente de cooperação para o desenvolvimento económico dentro destas condicionantes e, nesse sentido, recordo que, apesar dos riscos envolvidos, optei na devida altura pelo apoio ao Crescimento Verde, que é, claramente, uma das ferramentas para o novo tempo que se espera.