por Rafael Alves Rocha, Diretor-geral da CIP
Publicado no Jornal de Negócios a 26.03.2026
A recente crise no Médio Oriente veio expor uma vez mais a irrelevância política, a inação estratégica e a desorientação institucional que caracterizam hoje a União Europeia.
No fim de 2025, o Presidente norte-americano referiu-se à Europa como um conjunto de «nações em decadência», liderado por pessoas «fracas». «A Europa não sabe o que fazer», concluiu Donald Trump. À primeira vista, estas palavras parecem ofensivas e até chocantes. Mas, se não tivessem sido proferidas por Trump, poderiam facilmente ser subscritas pela opinião pública europeia. Há a consciência generalizada de que a Europa está sem rumo e de que, se não mudar, o seu extraordinário projeto comunitário pode sucumbir.
A recente crise no Médio Oriente veio expor uma vez mais a irrelevância política, a inação estratégica e a desorientação institucional que caracterizam hoje a União Europeia. A Europa não se pode pôr à margem da guerra contra o Irão, por muito que a intervenção militar dos EUA e de Israel lhe pareça insensata. As consequências para o mundo, designadamente económicas, são demasiado preocupantes para os líderes europeus se se colocarem na posição cómoda de observadores da trapalhada criada por Trump e na qual o Presidente norte-americano parece estar enleado.
A Europa tem de ser mais assertiva na defesa dos seus interesses e contribuir ativamente para uma solução para o conflito, mesmo que isso signifique falar grosso com Donald Trump. Os líderes europeus já deviam ter percebido, até pelo arrefecimento das ameaças norte-americanas à Gronelândia, que as posições firmes resultam melhor com um Presidente ‘bully’ e num contexto geopolítico em que a força tende a prevalecer sobre a diplomacia.
Já percebemos que o grande trunfo do regime iraniano é a destabilização da região, para fazer colapsar uma economia global muito dependente dos combustíveis fósseis. Cerca de 20 milhões de barris de petróleo, à volta de um quinto da produção global diária, passavam pelo estreito de Ormuz todos os dias, antes de este ser bloqueado pelo Irão. Os países do Golfo, cujas infraestruturas energéticas estão hoje sob a ameaça de bombardeamentos iranianos, fornecem mais de 20% das exportações mundiais de petróleo e gás natural. Não é, por isso, de estranhar a escalada dos preços dos combustíveis, com repercussões nos custos dos transportes, da indústria, da agricultura (também afetada pela falta de fertilizantes) e dos demais setores de atividade económica.
Ainda não totalmente refeita das crises financeira (2008) e da dívida soberana (2010–2012), da crise pandémica (2019–2021) e da crise energética e inflacionista pós-invasão da Ucrânia (2022–2023), a União Europeia perspetiva nova crise. Uma crise que reafirma a dependência energética dos 27 e a sua incapacidade de acelerar a transição para energias limpas, processo também dependente de matérias-primas, tecnologias e ‘know-how’ de que a Europa não dispõe. Com a agravante de que, a confirmar-se, esta nova crise vai, pelos efeitos sociais, alimentar o populismo, nomeadamente em França e na Alemanha, e ameaçar, deste modo, a sobrevivência do projeto europeu.
Numa altura em que a Europa precisa de executar as propostas de Mario Draghi para o crescimento e a competitividade, uma crise energética — provavelmente com pressão inflacionista e disrupção nas cadeias de abastecimento — poderá fazer rolar a pedra de Sísifo pela montanha abaixo. Para contrariar esta perspetiva, é imperiosa uma reorientação profunda do projeto europeu, que garanta coesão interna e capacidade decisória para pôr em prática o Relatório Draghi. O futuro da Europa passa pelo aprofundamento da natureza supranacional do projeto europeu, o que implica alargar o orçamento e as competências comunitárias, para lá do reforço da cooperação intergovernamental dos 27. Ou seja, passa por mais Europa. Caso contrário, a instabilidade geopolítica — que está para durar — tenderá a aprofundar a falta de competitividade, a dependência externa, o atraso tecnológico e a incapacidade estratégica dos 27.









