Leia aqui o artigo de opinião desta semana assinado por António Saraiva na sua coluna semanal do Dinheiro Vivo, ao sábado.
Publicado no Dinheiro Vivo, edição de 26.11.2016

Só uma visão de futuro pode transformar em oportunidade para a nossa economia o desafio da (r)evolução tecnológica

São as pessoas – empresários, gestores, quadros intermédios, todos os trabalhadores – o mais importante fator de sucesso das empresas. Na verdade, num mundo em que mercadorias, capital financeiro, equipamentos, tecnologia e informação têm uma mobilidade cada vez maior, tornando-se universalmente acessíveis e tendendo os respetivos preços a convergir, o capital humano é cada vez mais o principal fator de diferenciação de qualquer empresa ou de qualquer nação.

A qualificação da população portuguesa constitui, assim, um vetor crucial para o crescimento económico e para a promoção da coesão social.

É um desafio exigente, tanto a nível da formação inicial, que deverá desenvolver competências básicas para a vida e adequar-se às novas exigências do mercado, como, sobretudo, a nível da formação dos ativos das empresas. Neste domínio exige-se a atualização de competências, mas também a requalificação profissional, quando necessário, dado que muitas profissões foram e serão extintas e outras profundamente reformuladas.

Prevê-se que metade das atividades profissionais desapareçam nos próximos 10 a 15 anos. Ou seja, quando as crianças que hoje estão no ensino básico entrarem no mercado de trabalho, 50% das atividades profissionais que hoje conhecemos já não existirão.

A velocidade a que se processam as transformações faz com que, se não forem, desde já, construídas respostas a esta realidade, a falta de recursos humanos qualificados em Portugal arrisca-se a ser uma das principais barreiras à inovação digital nos próximos anos.

Esta preocupação esteve bem presente em várias propostas que resultaram da iniciativa Indústria 4.0 e que apontam para a promoção de novos conteúdos no sistema de ensino nacional e para a formação para profissionais que respondam aos novos desafios relacionados com a designada quarta revolução industrial.

Os jovens portugueses merecem bem que a qualificação profissional para o futuro esteja entre as grandes prioridades nacionais que é preciso estabelecer e concretizar, consensualmente, entre o governo e os parceiros sociais.

Além disso, a intensificação dos movimentos entre setores e atividades provocada pela aceleração da evolução tecnológica não se compadece com mercados de trabalho rígidos. Pelo contrário, exige leis laborais adequadas à adaptabilidade das empresas a mercados em constante mutação e à adoção de novos processos de aprovisionamento, de produção e de comercialização.

Esta é mais uma razão que reforça a nossa firmeza em não admitir retrocessos nas reformas que foram levadas a cabo no sentido favorável à flexibilidade do mercado do trabalho e em recusar uma visão redutora do que deve ser o combate à precariedade laboral.

Na qualificação ou no enquadramento laboral, só uma visão de futuro pode transformar em oportunidade para a nossa economia o desafio da (r)evolução tecnológica.