Leia aqui o artigo de opinião desta semana assinado por António Saraiva na sua coluna semanal do Dinheiro Vivo, ao sábado.
Publicado no Dinheiro Vivo, edição de 10.12.2016

” Os problemas do desemprego e do endividamento, público e privado, com que a sociedade portuguesa se defronta, só poderão ser ultrapassados se formos capazes de criar as condições necessárias para atingir taxas de crescimento económico, pelo menos, na ordem dos 3% ao ano, suportadas pelas exportações e pelo investimento. Esta é a primeira meta a alcançar.

Só desta forma será possível obter ganhos de produtividade que proporcionem maior competitividade à nossa economia e, simultaneamente, criar novos postos de trabalho.

Só desta forma será possível reduzir o rácio da dívida pública, sem criar graves constrangimentos à política orçamental.

Só desta forma será possível, de igual modo, uma desalavancagem saudável do setor empresarial privado.

A sustentabilidade do crescimento terá de basear-se numa crescente contribuição das exportações para o PIB, aproximando-se dos rácios que as economias europeias de dimensão equivalente à nossa apresentam. Aponto, por isso, para uma segunda meta: aumento da intensidade exportadora para perto de 50%, num horizonte temporal de cinco anos.

O peso do investimento no PIB terá de regressar a valores mais elevados, sustentado por poupança interna. Para o mesmo horizonte de cinco anos, aponto para um valor de 18%, mesmo assim ainda inferior aos valores pré-crise.

Não sei quais os sectores que mais peso ganharão na nossa estrutura produtiva e na estrutura das nossas exportações e espero que nenhum governo tenha a veleidade de os definir, a priori. Agora, sei que, neste cenário, os sectores produtores de bens e serviços transacionáveis terão reconquistado peso na economia.

Esta evolução pressupõe a aceleração do processo de relançamento industrial, e a nossa ambição deve ter como meta que o peso da indústria no PIB atinja os 18%.

Só com uma indústria forte e participante da revolução tecnológica a economia ganhará capacidade de inovação, conseguirá criar empregos qualificados e poderá superar choques económicos.

Neste cenário, será possível cumprir uma quinta meta de manter taxas de crescimento do emprego da ordem dos 1,5% ao ano, com a redução do desemprego para níveis inferiores aos registados antes da crise.

Esta evolução do emprego mostra-se, além disso, compatível com ganhos de produtividade que permitem um aumento moderado, mas consistente, das remunerações dos trabalhadores.

Exige, por outro lado, um mercado do trabalho flexível e um grande esforço na adequação das qualificações às exigências associadas à oferta de novos postos de trabalho no sector produtivo.

O crescimento do consumo privado terá de permanecer contido, abaixo dos valores do crescimento do PIB, mas já será possível aos portugueses constatarem nos seus níveis de bem-estar económico os frutos dos sacrifícios que lhes foram exigidos.

Tenho consciência da ambição que coloco nestas cinco metas – para o crescimento do PIB, a intensidade exportadora, a taxa de investimento, o peso da indústria na economia e a criação de emprego.

Alcançar estas metas exige aumentos das exportações e do investimento a um ritmo de cerca de 5% ao ano.

É verdade que poderão ser retardadas por múltiplos fatores externos que nos escapam, mas se não levantarmos a nossa fasquia suficientemente alto, ficaremos resignados à mediocridade e faltar-nos-á determinação para levar a cabo uma estratégia económica sólida, capaz de nos conduzir a um rumo de progresso para o nosso país.

Quando ouço argumentar que não será possível atingir determinadas metas porque no passado nunca foram alcançadas, só posso responder que, então, desta vez, é preciso fazer diferente, para obter melhores resultados.

O que se vai passar amanhã não depende do que aconteceu ontem, mas do que hoje formos capazes de fazer. Por isso, é preciso ter a coragem de concretizar as reformas necessárias para alterar as tendências do passado e libertar o nosso futuro de determinismos fatalistas.”