“Conflitualidade e expectativas”

  Categoria: Assuntos Económicos

2019-02-23_artigo-dv

 

Leia aqui o artigo de opinião desta semana assinado por António Saraiva na sua coluna semanal do Dinheiro Vivo, ao sábado.
Publicado no Dinheiro Vivo, edição de 23.02.2019

https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/conflitualidade-e-expectativas/

O atual aumento da conflitualidade laboral poderá parecer intrigante, após vários anos de recuperação dos rendimentos dos portugueses.

Como já afirmei, num ano marcado por eleições, era já esperado um aumento da crispação política e social. No entanto, há razões mais profundas que ajudam a explicar esta questão.

O descontentamento social tende a crescer, não tanto quando os tempos são mais difíceis e o bem-estar económico é afetado, mas sobretudo quando se gera um sentimento de frustração de expectativas.

Ora, como também já afirmei, foram criadas pelo Governo expectativas elevadas quando se anunciou – e repetiu vezes sem conta – a ideia de que não só era possível a “romper com a austeridade” como era necessário “virar a página da austeridade”.

Esta ideia falou bem mais alto do que os avisos de que seria prosseguida uma gestão criteriosa das contas públicas.

Ora, num país com uma das maiores dívidas públicas do mundo e onde a carga fiscal vai ultrapassando níveis históricos, era evidente que, havendo a possibilidade (diria mesmo necessidade) de aliviar o grau de restritividade orçamental, não era possível “romper” com a austeridade, entendida como atitude de rigor e contenção na condução da despesa pública.

Foram, em grande parte, as expectativas criadas que levaram a exigências demasiado elevadas, mesmo para um governo que privilegiou a redistribuição de rendimentos à criação de melhores condições para o crescimento sustentado, estimulou mais o consumo do que o investimento, olhou mais para o curto-prazo do que para o futuro.

De facto, as expectativas de maior bem-estar material só podem ser correspondidas com mais e melhor crescimento económico, que só as empresas podem proporcionar.

Isto significa que, se queremos que os rendimentos cresçam a ritmos mais alinhados com as nossas legítimas aspirações de bem-estar económico, é necessário sustentar o crescimento em bases mais sólidas e duradouras, consistentes com um modelo de economia competitiva, assente em aumentos da produtividade.

A produtividade é condição indispensável para que as empresas criem mais emprego e suportem aumentos salariais, gerando os rendimentos capazes de sustentarem um Estado que atenda às aspirações de trabalhadores e pensionistas e garanta a qualidade na prestação de serviços de interesse público.

Por isso, no período eleitoral que se avizinha, desconfiemos de promessas inconsequentes e prestemos mais atenção ao que nos será proposto como via para estimular a produtividade das empresas portuguesas. Um tema menos mediático, sem dúvida, do que tantos outros que ocupam mais espaço nos discursos de campanha, mas do qual depende a prosperidade que desejamos para o nosso país.

E lembremos a todos os que se empenham em ganhar o voto dos portugueses que o pior que os políticos podem fazer é prometer o impossível.

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