“Abstenção”

  Categoria: Assuntos Económicos, União Europeia

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O aumento contínuo da taxa de abstenção é um sintoma de uma doença que enfraquece e corrói a nossa democracia.

Leia aqui o artigo de opinião desta semana assinado por António Saraiva na sua coluna semanal do Dinheiro Vivo, ao sábado.
Publicado no Dinheiro Vivo, edição de 01.06.2019

https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/abstencao/

Ao contrário do que sucede noutros países, os resultados das eleições para o Parlamento Europeu não apontam para convulsões no nosso sistema partidário. Felizmente, estamos, por enquanto, ao abrigo de derivas populistas ou extremistas, protagonizadas por forças que aproveitam o vazio deixado por partidos desacreditados.

No entanto (até pelo contraste com o que aconteceu na generalidade dos outros países europeus) o aumento contínuo da taxa de abstenção, atingindo um nível que considero altamente preocupante, é um sintoma de uma doença que enfraquece e corrói a nossa democracia.

De facto, o interesse cada vez menor dos cidadãos (sobretudo dos jovens) pela política e a falta de capacidade dos partidos políticos para os mobilizarem é um sinal evidente da degradação dos mecanismos básicos da democracia representativa.

Depois de 1974, em Portugal, os partidos políticos lideraram transformações sociais, promoveram reformas, procuraram ser os depositários das expectativas dos diversos grupos sociais.

Entretanto, foram concentrando um protagonismo excessivo, que abafou outras formas de participação social.

No exercício do poder, ou fora dele, limitaram-se a tolerar a existência de organizações que pudessem controlar ou instrumentalizar. Mas nunca resistiram à tentação de procurar contrariar o exercício livre de formas alternativas de participação social.

Fechando-se sobre si próprios, focando-se nas suas querelas internas, perderam dinâmica, deixaram de ser motores da sociedade.

À força de formularem promessas e teimarem em garantias que não podem simplesmente ser cumpridas, foram perdendo credibilidade.

Também as instituições do Estado, numa atitude ora paternalista, ora de desconfiança, tendem a lidar com as organizações da sociedade civil como se as mesmas fossem entidades menores.

O reforço da nossa Democracia exige novas soluções, novas formas de fazer política e de exercer o poder, que sintonizem os agentes políticos com a sociedade (e vice-versa), até porque seria absurdo que, neste momento, se abra o caminho para que no nosso país se repliquem os erros de outros.

Essas soluções passam por um maior envolvimento da sociedade civil, através de entidades com provas dadas. Entidades a quem seja permitido ser agente de mudança.

Porque, se uma sociedade civil moderna requer um Estado moderno e democraticamente organizado, este pressupõe a abertura, o diálogo e o contributo de uma sociedade civil ativa e plural.

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